PDF

Sala Ambiente Realidade Escolar e Trabalho Pedagógico

A Educação Básica e a Coordenação Pedagógica

O papel da coordenação pedagógica


A proposta de implantação de um curso de formação continuada para os profissionais que atuam na área da coordenação pedagógica de uma instituição educacional nasceu do reconhecimento da importância deste profissional para a melhoria da qualidade do ensino brasileiro.

Entendemos que o coordenador pedagógico é aquele profissional que tem por atribuição, no âmbito escolar, articular, coordenar, acompanhar, supervisionar, orientar, subsidiar o desenvolvimento do trabalho pedagógico que se desenvolve no interior da escola, na perspectiva da realização de um ambiente escolar que favoreça o desenvolvimento da aprendizagem, da ética, da cidadania, a partir do fortalecimento da gestão democrática e do trabalho coletivo.

No Brasil, a função de coordenação pedagógica nasceu na década de 1920, conforme atesta Roman (2001), com a tarefa de homogeneizar propostas pedagógicas, hierarquizar competências e catalogar as práticas pedagógicas. No decorrer do século XX e, sobretudo, no auge do tecnicismo da década de 1970, a dicotomização do trabalho pedagógico tornou-se potencializada com a estruturação da divisão entre planejamento e execução. A figura do coordenador pedagógico, revestida dos cargos de supervisão, orientação e inspeção escolar simbolizava o controle e a hierarquização do poder.

Contudo, no confronto desse processo, ocorreram experiências que favoreceram o trabalho coletivo e o fortalecimento de relações democráticas no processo educacional, conforme Fernandes (2005) revela em seu estudo sobre a realidade do sistema educacional paulista. Segundo a autora, os coordenadores pedagógicos, no cotidiano de algumas escolas, assumiram uma prática mais participativa, na qual novas experiências pedagógicas foram desenvolvidas.


Com a redemocratização da sociedade, na década de 1980, e a conquista dos movimentos dos trabalhadores da educação pelo principio da democratização da gestão escolar, foram intensificadas as experiências e as funções dos coordenadores pedagógicos em face aos novos projetos educativos implantados pelos sistemas. Entretanto, como consequência da reforma educacional dos anos de 1990, observa-se um acirramento das condições precárias das escolas em meio às profundas transformações sociais e econômicas. Em tempos de globalização, como demonstrado por diversos estudos (OLIVEIRA, 2001; SHIROMA, 1999) a educação figura com uma dupla dimensão: primeira, ela é considerada como fator de desenvolvimento econômico; segunda, a educação escolar tem sido associada a mecanismos de contenção da pobreza. Como agravante, os trabalhadores da educação são considerados os principais responsáveis pelo desempenho dos alunos, da escola e do sistema e, dessa forma, precisam assumir funções de assistente social, psicólogo etc.

Em face desses desafios, o marco legal regulatório da educação escolar brasileira, a Lei nº 9.394/96, define um elenco de tarefas a serem executadas pela instituição e seus profissionais. Nessa medida, os docentes passam a se envolver de forma mais direta na gestão democrática da escola articulados à família e à comunidade. A materialização da gestão democrática, pelo que se pode ler na lei, se configura pela autonomia financeira, pedagógica e administrativa, devendo o profissional acompanhar e classificar o aluno de acordo com o seu desempenho, controlar a freqüência, organizar o projeto pedagógico e o calendário da escola entre outras tarefas, como a gestão financeira, que passou a ocupar lugar central do trabalho do diretor escolar.

Essas mudanças repercutiem sobre a organização do trabalho pedagógico, pois passaram a exigir mais tempo de trabalho ou uma intensificação das atividades docentes e de gestão. Consequentemente surge uma nova dinâmica hierárquica no interior da escola e uma ênfase no trabalho coletivo, o que leva muitos profissionais a buscarem novos saberes que possam orientá-los em face das novas demandas.


A divisão do trabalho escolar foi, assim, progressivamente alterada e a função de coordenação pedagógica figura com um grau de importância elevado para o cumprimento dos objetivos educacionais, haja vista o aumento dos problemas sociais que afetam a vida escolar no quadro de redução do número de profissionais e de aumento de alunos por sala de aula.

Como exemplo das mudanças, podemos observar que continua precária, em muitos sistemas educacionais do país, a condição do coordenador pedagógico – se esse profissional tem um cargo ou somente uma função. Como consequência, há diversificação do perfil do coordenador pedagógico (licenciado ou pedagogo); sobre quem tem a responsabilidade na formação continuada do quadro de professores e o atendimento à família nos casos de indisciplina, violência ou dificuldade de aprendizagem. Ademais, questionamentos são feitos sobre o papel do coordenador pedagógico para que vá além apaziguar conflitos, apagar focos de incêndio ou ficar sujeito às contingências imediatas do cotidiano escolar.

A realidade educacional mostra que o coordenador pedagógico tem um importante papel de articulador e integrador dos processos educativos que se constroem no interior da escola. Sua atuação e seu trabalho podem contribuir de maneira significativa para que se realize na escola um ambiente educativo que favoreça ao desenvolvimento da aprendizagem, do conhecimento, do trabalho coletivo e interdisciplinar, da ética, da cidadania, na perspectiva de uma educação, de uma escola, de uma sociedade cada vez mais inclusiva.

Por sua vez, os processos educativos escolares implicam diferentes e múltiplas dimensões do fazer pedagógico na escola. Por um lado, têm-se as relações que os indivíduos estabelecem entre si no cotidiano da escola, definidoras do ambiente escolar, nos diferentes espaços e momentos que ali se constroem e reconstroem. Com efeito, as relações profissionais, afetivas e sociais que se desenvolvem no interior da escola são elementos estruturantes do trabalho educativo escolar, na medida em que, também nessas relações, homens e mulheres se humanizam e se educam. Nessas relações, saberes, práticas, visões de mundo e de sociedade se encontram e interagem mutuamente, a partir da relação entre alunos, professores e toda comunidade escolar.

Por outro lado, têm-se os processos didáticos que se realizam no processo de ensino-aprendizagem e na interação professor-aluno. Por certo, é preciso reconhecer que uma das especificidades da escola refere-se ao tratamento do conhecimento e sua difusão, a partir de campos de saber e metodologias específicas, orientado por determinadas concepções de aprendizagem, de cognição, de planejamento, de avaliação, de cultura e do próprio conhecimento.

Ao lado dessas duas dimensões é fundamental apreender e compreender a relação da escola e seus sujeitos com o contexto mais amplo em que se situam. A escola e os processos educativos que se desenvolvem no seu interior são engendrados por esse contexto, mediados pelos condicionantes sociais, políticos, culturais, econômicos e étnicos. Com efeito, alunos e suas famílias, professores e demais profissionais que atuam na escola são, antes de tudo, sujeitos sociais, que vivem em sociedade e, dessa forma, trazem consigo as marcas dessa sociedade e sua história.


Ressalte-se, ainda, a importância de se trabalhar a dimensão da inclusão na e da escola. Por certo, é preciso que a escola seja capaz de trabalhar com a diferença e diversidade de modo a se romper com práticas e estruturas que tendam a reforçar preconceitos e relações excludentes de diferentes matizes, étnicas, raciais, religiosas, físicas, dentre outras.

Portanto, o coordenador pedagógico, enquanto elemento fundamental na articulação e coordenação dos processos educativos escolares deve ser capaz de compreender e atuar nessas dimensões que estruturam e definem a escola, de modo a se garantir o direito de aprender como componente do direito à educação. Além disso, essa capacidade é requisito imprescindível, também, para se construir na escola um ambiente educativo que favoreça ao desenvolvimento da ética, da cidadania, da solidariedade, da inclusão, orientado por um projeto pedagógico que tenha como horizonte a gestão democrática da educação e da escola.

LEITURAS OBRIGATÓRIAS

Para aprofundar as questões deste debate, leia os seguintes textos:

DOURADO, L. F. Políticas e Gestão da Educação Básica no Brasil: limites e perspectivas. In: Educação & Sociedade: revista de ciência da educação. Campinas: Cortez/CEDES. V. 28, Nº 100, 2007.
Este artigo irá contribuir no aprofundamento das questões que perpassam a organização do trabalho pedagógico, pois aborda o cenário político e pedagógico em que se realizam as políticas direcionadas à gestão da Educação Básica e o impacto dos programas implantados na qualidade da educação e na gestão democrática. é sabido que os programas e projetos educacionais impactam diretamente e/ou indiretamente no trabalho da coordenação pedagógica.

PIMENTA, S. G. Questões sobre a organização do trabalho na escola. Idéias, São Paulo, v. 16, p. 78-83, 1993.
http://www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_16_p078-083_c.pdf
Neste artigo a autora focaliza a importância da escola elaborar coletivamente o seu Projeto Pedagógico. Refletir sobre suas finalidades educativas. Identificar dificuldades, necessidades, bem como formas de superá-las.



LEITURAS COMPLEMENTARES

ALMEIDA, L.R. e PLACCO, V.M.N.S. O coordenador pedagógico e o espaço de mudança. São Paulo: Loyola, 2009.
NÓVOA, A. Os professores e o “novo” espaço público da educação. In: TARDIF, M. e LESSARD, C. (Orgs.). O Ofício de Professor: histórias, perspectivas e desafios internacionais. Petrópolis: Vozes, 2008.
TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.






ATIVIDADE 3 - OBRIGATÓRIA

Um dia normal de aula se inicia. A coordenadora chega à escola com entusiasmo para elaborar a agenda da semana. Passa inicialmente pela sala dos professores para desejar a eles um bom dia de trabalho. Logo ao entrar, recebe a notícia de que o professor de Língua Portuguesa vai faltar. Consulta o horário e verifica que ele daria todas as aulas naquele dia. Não pode deixar os alunos sem aula. Imediatamente, verifica se há professores com “janela” e tenta arrumar as substituições. Na primeira aula, ela mesma entra na classe e conversa com os alunos sobre o trimestre que passou, aproveita para fazer um levantamento das dificuldades que encontraram, já tendo em mente o conselho de classe que se aproxima. Na segunda aula, precisará atender um pai de aluno que havia marcado horário no dia anterior. Enquanto aguarda o pai, que está atrasado, seleciona um texto para os professores lerem e discutirem no próximo encontro. Neste ano, estão revendo o projeto pedagógico e necessitam, enquanto coletivo escolar, refletir diferentes teorias de ensino e seus pressupostos. Escolhe um texto que trata de uma dessas teorias. Quando houver tempo, pretende discutir com a outra orientadora se o texto está apropriado ou não e planejar com ela uma dinâmica para estimular a discussão. O pai chega, é atendido, e em seguida um grupo de alunos a procura com algumas reclamações sobre uma prova. Ela pergunta se já haviam conversado com a professora e os orienta que devem sempre procurar primeiro a professora antes de trazer o problema para a coordenação. Em seguida, chama a professora de Matemática para conversar com a necessidade de variar suas estratégias de aula para conseguir que os alunos tenham um melhor aproveitamento. A coordenadora tem acompanhado essa professora, que é nova na escola. Conversam sobre a rotina da aula e sobre diversas possibilidades de variação. A professora sai da sala em busca de desafios que possam enriquecer a fixação do conteúdo. Final da manhã.. (ANDRÉ e VIEIRA, 2007, p. 16-17).


O trecho acima retrata uma manhã de trabalho de uma coordenadora pedagógica que atua há dez anos. O relato revela que o dia de um coordenador pedagógico é repleto de acontecimentos variados, o que exige a mobilização de saberes novos e aqueles já internalizados pela experiência.

  1. Descreva você também um dia de trabalho, buscando evidenciar as diferentes situações do cotidiano escolar e procure identificar os diversos saberes que precisou mobilizar.
  2. Ao estabelecer uma reflexão teórica sobre o seu trabalho, participe do fórum de debates para troca de experiências.

Envie sua produção e comente no Fórum “Atividade 3”, tópico “O papel da coordenação pedagógica”.





ATIVIDADE 4 - OBRIGATÓRIA

Após a leitura do texto de DOURADO, L. F. Políticas e Gestão da Educação Básica no Brasil: limites e perspectivas. In: Educação e Sociedade: revista de ciência da educação. Campinas: Cortez/CEDES. V. 28, Nº 100, disponibilizado na Biblioteca, faça a sistematização de suas principais contribuições, a partir do roteiro abaixo:

  1. Concepção de gestão educacional;
  2. Características das políticas educacionais implantadas nos últimos anos;
  3. Descrever os programas federais de Educação Básica citados pelo autor e relacionar com experiências vivenciadas por você no âmbito de sua escola com alguns desses programas.

Envie essa produção para a Tarefa “Atividade 4”.





ATIVIDADE 5 - complementar

Após a leitura do texto de AUGUSTO, Silvana. Desafios do coordenador pedagógico. Nova Escola. São Paulo, n. 192, maio 2006,disponível em:
http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/coordenador-pedagogico/desafios-coordenador-pedagogico-546602.shtml ou [pdf]

Reflita acerca das seguintes questões:

  1. O que a autora quer dizer com “é preciso construir histórias institucionais”
  2. O que a autora quer dizer com “é do estranhamento que surgem bons problemas”
  3. Você concorda com as atividades que a autora dispõe para a coordenação pedagógica? Você colocaria outras?

Utilize a ferramenta Tarefa “Atividade 5” para enviar suas respostas.

[1] | [2] | [3] | [4]